segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Bonde de Versalhes

Em meados de 2012, minha amiga Imara Reis entrou em contato comigo para pedir uma mão na peça que estava dirigindo com alunos de uma escola de teatro de Santo André. Eu morava em Aracaju à época, o que me impossibilitava viajar para acompanhar o processo de montagem, estar mais presente, conhecer o elenco, coisas assim. Contudo, a experiência acabou se tornando bastante rica, pois me botou mais próximo ao universo de Molière - a propósito, a peça montada foi uma adaptação do "Improviso de Versalhes" - e tirou as teias de aranha de minha veia poética (não gosto desta expressão, mas foi a única coisa que me veio à cabeça agora). 

Minha participação resumia-se em escrever a canção de abertura da peça (ei-la abaixo...) e uma versão em português da canção "Qu'est-ce qu'on attend pour être heureux". Tudo foi feito a muitas mãos. A tarefa na qual estive mais solitário foi na de escrita da letra abaixo, em que busquei emular o estilo de versificação utilizado pelo dramaturgo francês. Acredito que fui razoavelmente bem sucedido, apesar de sempre nos sentirmos muito aquém dos mestres.

Aproveito para agradecer publicamente à Imara pelo convite, e aos amigos Dudu Jazedje e Pedro Kebbe, músicos que colaboraram crucialmente na elaboração da melodia dessa canção de abertura. 

Tomara que me surjam outras oportunidades iguais a essa. Se bem que, caso não surjam, eu bem que poderia criá-las. 


BONDE DE VERSALHES


Molière foi do rei o autor preferido
e com o que escreveu causou grande alarido
em cena colocou a farsa de um marquês
cioso pra não ser mais um corno francês
Seu plano fracassou, pois sua escolhida
não era sem noção mas sim muito sabida
Pois isso iniciou um duelo de penas
em que os palcos então fizeram vez de arenas

Dê logo seu sinal não perca seu assento
que o Bonde de Versalhes é só divertimento

Perdendo a politesse, um fraco literato
que muito se doeu, fez logo desacato
tentando desbancar o dileto real
mas este não se acanha e pega e faz igual
também responde em peça a peça que o atacou
e o toma lá dá cá, o caldo avolumou
Até velho Corneille, o mestre das tragédias
no grupo de Boursault entrou nessas comédias

De ator natural a marquês sorumbático
O Bonde de Versalhes é muito democrático

Com mais o que fazer, ciente dos ciúmes
dos de fora do paço, que acabam-se em queixumes
decide o nosso autor dar um ponto final
nessa querela Cult pra não acabar mal
numa peça-improviso assim meio esquelética
mas cheia de vigor expôs sua poética
agradando outra vez, cumprindo seu mister
e os fãs em coro gritam: Viva, Molière!

Segure o seu lugar escolha uma bebida
o Bonde de Versalhes é festa garantida



Aracaju, 17/08/2012

Nenhum comentário: