domingo, 23 de agosto de 2015

Diz-se: "vão-se os anéis, ficam os dedos"
Se algum pertence nos é afanado

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Homem-bomba

Em uma empresa. A notícia da demissão do Silas corre como fogo em rastro de pólvora.

FUNCIONÁRIO 1
Ei, você viu o Silas?

FUNCIONÁRIO 2
Que que tem o Silas?

FUNCIONÁRIO 1
Foi mandado embora por justa causa.

FUNCIONÁRIO 2
Foi mesmo? Por quê?

FUNCIONÁRIO 1
Deu um desfalque na empresa.

FUNCIONÁRIO 2
Quem disse?

FUNCIONÁRIO 1
Estão dizendo aí.

*

FUNCIONÁRIO 3
Não acredito. Tão bonzinho ele.

FUNCIONÁRIO 2
Quer saber, ele nunca me enganou. Lembro de como ele olhava para a mulher do chefe.

*

FUNCIONÁRIO 4
Jura? Que babado!

FUNCIONÁRIO 3
Pois é. Foi porque roubou uma bolada da empresa e ainda tinha caso com a mulher do gerente.

FUNCIONÁRIO 4
Eu soube que o cara andava meio revoltado, parecia que usava drogas, mas daí a fazer essas coisas.

FUNCIONÁRIO 3
É, e não era ele que sempre dizia que tinha vontade de explodir tudo isso aqui?

*

FUNCIONÁRIO 5
Homem-bomba, o Silas?
FUNCIONÁRIO 4
Ele compra bombas com dinheiro do tráfico.

FUNCIONÁRIO 5
Tráfico?

FUNCIONÁRIO 4
Sim, dinheiro do tráfico.

*

FUNCIONÁRIO 6
Mentira...

FUNCIONÁRIO 5
Pois eu to dizendo. Ele tinha um caso com o gerente, e os dois estavam armando explodir o prédio.

FUNCIONÁRIO 6
Ah, então estão explicadas as horas extras...

FUNCIONÁRIO 5
As bombas os dois compram traficando mulheres para prostituição na Europa.

FUNCIONÁRIO 6
E o desfalque na empresa?

FUNCIONÁRIO 5
Foi a mulher do gerente que exigiu dinheiro para abafar a traição do marido.

*

FUNCIONÁRIO 7
Você só pode estar brincando...

FUNCIONÁRIO 6
De jeito nenhum! E o próximo alvo deles, depois de explodir aqui, é Brasília.

*

Funcionário trabalhando com televisão ligada. Notícia: “A Polícia Federal investiga a ligação de servidores públicos com o tráfico internacional de mulheres. O maior suspeito da investigação é acusado de portar bombas para causar pânico na população. A vigilância nas ruas tem aumentado, no intuito...”. Silas entra carregando uma mochila. Volta e meia, olha pro relógio.

SILAS
Bom dia, pessoal!

TODOS OS FUNCIONÁRIOS
Silas!!!

FUNCIONÁRIO 1
Você não levou justa causa?

FUNCIONÁRIO 2
Você não tinha caso com a mulher do chefe?

FUNCIONÁRIO 3
Cadê as mulheres do tráfico?

FUNCIONÁRIO 4
Então, você é gay!

FUNCIONÁRIO 5
Tem bomba nessa mochila aí?

FUNCIONÁRIO 6
Quem matou PC Farias?

FUNCIONÁRIO 7
Qual era o nome dos Três Patetas?

SILAS
Larry, Moe e Curly!

TODOS
Aê, garoto!

SILAS
Gente, deixa eu dizer uma coisa pra vocês: é tudo mentira isso que estão dizendo. Na verdade, a gente combinou com a televisão para dar esse trote em vocês, porque o clima andava muito sério por aqui. E pra comemorar, [pega um rádio portátil e põe pra tocar] trouxe um pagodinho pra dar uma animada. Vamos lá gente. Putz, esqueci de uma coisa, gente! Só um minuto, volto já.

Os outros funcionários estão entretidos com o som e a surpresa, esquecidos das especulações anteriores. De repente, a bomba que Silas deixou explode e não deixa ninguém vivo.




São Cristóvão, 13 de maio de 2013

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Questão de tonicidade

Estou trabalhando tonicidade com os sextos anos para os quais dou aula. Procurando por atividades na internet, acabei me deparando com os ótimos exercícios do Blog da Nani (http://www.blogdanani.com.br/2010/08/tonicidade-exercicios-de-fixacao-com.html), dentre eles, o que se segue:]

2 – Cada item só emprega palavras da mesma classificação quanto à tonicidade. Classifique as palavras de cada item: 
a) Muito fraco esse palhaço, gente! 
b) Achei genial. Aplaudi demais. 
c) Espetáculo engraçadíssimo! Esplêndido! 

Achei ótima a ideia de desenvolver frases utilizando palavras com apenas um tipo de sílaba tônica e acabei desenvolvendo as minhas:

Mamãe, papai estudou alemão até adormecer.

Carlos Alberto falta praticamente todo dia.

Mesmo enquanto estamos dormindo pesado, estamos pensando insistentemente.

Indígenas bêbados: sílabas poéticas engraçadíssimas.

Fleumático asiático cibernético, antibiótico diário.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Cartas

Em casa, Gregório chega com cartas, bastante animado, eufórico.

GREGÓRIO
Amor, vc não vai acreditar.

CLARICE
No quê?

GREGÓRIO
Chegou carta pra gente!

CLARICE
Ai, não acredito! Que maravilha! De quem? De quem? De quem?

GREGÓRIO
Do banco, amor!

CLARICE
Do banco? Ai, que emoção! E tem mais carta aí?

GREGÓRIO
Sim! Tem também do cartão, da luz, da água, IPTU, NET, da financeira e uma outra que vc não vai acreditar...

CLARICE, ansiosa
Ai, fala logo! Vai, fala...

GREGÓRIO
Do Serasa!

CLARICE
Que demais! Tô emocionada!

GREGÓRIO, dando as cartas
Abre você!

CLARICE, abrindo os envelopes
Vamos ver essa do cartão primeiro. Ai, tão gentil o cartão mandar uma carta pra gente. Poxa, e eu que disse ontem que não recebia mais cartas, lembra?

GREGÓRIO
Lembro.

CLARICE
Olha só que amor: Prezado cliente, favor quitar as faturas vencidas. Que gentileza, Gregório, eu fico emocionada. Deixa eu ver mais. [levando um susto de alegria] Não acredito! O total da fatura está o dobro da fatura anterior! Incrível como esse cartão é capaz de multiplicar o dinheiro!

GREGÓRIO
Pois é, desse jeito, a gente vai ajudar ele a bater mais um recorde de lucro, Clarice! Já pensou nisso?

CLARICE
Não é?! Me dá orgulho fazer parte disso. [pausa] Ai, tô ansiosa.

GREGÓRIO
Por quê?

CLARICE
Pra ler a cartinha do Serasa.

GREGÓRIO
Eita, eu também estou. Já abriu?

CLARICE
Já, tá aqui. [respira fundo e lê] “Prezado(a) Senhor(a), em cumprimento ao art.43, parágrafo segundo, da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, comunicamos a abertura de cadastro em seu nome — [emocionada] ele abriram um cadastro pra gente! —, no qual serão registradas as obrigações de sua responsabilidade, por solicitação dos credores”. Gregório, como o Serasa é atencioso com a gente. Ele está lembrando das nossas dívidas. Ou seja, ele está cuidando do nosso dinheiro!

GREGÓRIO, lendo algumas outras contas
É! E olha aqui: a luz subiu 50%, a água está mandando aviso de corte, o cartão da C&A veio cobrando um monte de serviço que a gente não pediu e a NET veio 3 vezes o valor normal. Amor, eu nem sei o que dizer... São muitas novidades ao mesmo tempo, tanta gente se importando com a gente, querendo o nosso bem... É por essas e outras que eu não perco a esperança na humanidade.

CLARICE
Ei, a gente precisa comemorar! Vamos sair? Pegar um cinema, uma pizza etc?

GREGÓRIO
Só se for agora! Está com os cartões na bolsa?

CLARICE
Tô.

GREGÓRIO
Eles têm limite?

CLARICE
Não, nenhum.

GREGÓRIO
Então, pega o detergente.

CLARICE
Pra que o detergente?

GREGÓRIO
Pra gente lavar os pratos na pizzaria.

CLARICE
Boa idéia!

Toca a campainha. Gregório vai abrir a porta. É um oficial de justiça.

GREGÓRIO
Amor, olha quem veio visitar a gente! Um oficial de justiça!

OFICIAL DE JUSTIÇA
Eu vim confiscar o carro de vocês por conta de dívidas. Como vocês podem ver aqui...

GREGÓRIO
Amor, ele vai ficar com o nosso carro! Finalmente, a gente vai aderir ao movimento cidade limpa! Muito obrigado, Sr. Oficial! Quer comer uma pizza com a gente? Você dá uma carona?



Aracaju, 4 de maio de 2013



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Bonde de Versalhes

Em meados de 2012, minha amiga Imara Reis entrou em contato comigo para pedir uma mão na peça que estava dirigindo com alunos de uma escola de teatro de Santo André. Eu morava em Aracaju à época, o que me impossibilitava viajar para acompanhar o processo de montagem, estar mais presente, conhecer o elenco, coisas assim. Contudo, a experiência acabou se tornando bastante rica, pois me botou mais próximo ao universo de Molière - a propósito, a peça montada foi uma adaptação do "Improviso de Versalhes" - e tirou as teias de aranha de minha veia poética (não gosto desta expressão, mas foi a única coisa que me veio à cabeça agora). 

Minha participação resumia-se em escrever a canção de abertura da peça (ei-la abaixo...) e uma versão em português da canção "Qu'est-ce qu'on attend pour être heureux". Tudo foi feito a muitas mãos. A tarefa na qual estive mais solitário foi na de escrita da letra abaixo, em que busquei emular o estilo de versificação utilizado pelo dramaturgo francês. Acredito que fui razoavelmente bem sucedido, apesar de sempre nos sentirmos muito aquém dos mestres.

Aproveito para agradecer publicamente à Imara pelo convite, e aos amigos Dudu Jazedje e Pedro Kebbe, músicos que colaboraram crucialmente na elaboração da melodia dessa canção de abertura. 

Tomara que me surjam outras oportunidades iguais a essa. Se bem que, caso não surjam, eu bem que poderia criá-las. 


BONDE DE VERSALHES


Molière foi do rei o autor preferido
e com o que escreveu causou grande alarido
em cena colocou a farsa de um marquês
cioso pra não ser mais um corno francês
Seu plano fracassou, pois sua escolhida
não era sem noção mas sim muito sabida
Pois isso iniciou um duelo de penas
em que os palcos então fizeram vez de arenas

Dê logo seu sinal não perca seu assento
que o Bonde de Versalhes é só divertimento

Perdendo a politesse, um fraco literato
que muito se doeu, fez logo desacato
tentando desbancar o dileto real
mas este não se acanha e pega e faz igual
também responde em peça a peça que o atacou
e o toma lá dá cá, o caldo avolumou
Até velho Corneille, o mestre das tragédias
no grupo de Boursault entrou nessas comédias

De ator natural a marquês sorumbático
O Bonde de Versalhes é muito democrático

Com mais o que fazer, ciente dos ciúmes
dos de fora do paço, que acabam-se em queixumes
decide o nosso autor dar um ponto final
nessa querela Cult pra não acabar mal
numa peça-improviso assim meio esquelética
mas cheia de vigor expôs sua poética
agradando outra vez, cumprindo seu mister
e os fãs em coro gritam: Viva, Molière!

Segure o seu lugar escolha uma bebida
o Bonde de Versalhes é festa garantida



Aracaju, 17/08/2012