terça-feira, 19 de maio de 2015

Corrupção cunhada

A cunha que eu precisava.
Há dias, ando obcecado por um pequeno projeto doméstico. Trata-se de uma mesinha de madeira que quero fazer e dar de presente a minha filha. Para tanto, estou desmembrando um móvel velho que estava aqui em casa. Ele era composto por peças de madeira maciça (pinus) e MDP (Medium Density Particleboard). Minha ideia é aproveitar as peças de madeira, que eram mais de setenta por cento do móvel. Até aí, ok. Mas, tem um detalhe: cadê as ferramentas de carpintaria? Apesar de eu gostar muito de trabalhar a madeira, não tenho o material necessário para tanto. Daí, devagarzinho vou pegando uma dica aqui, outra ali, descubro uma ferramenta nova e por aí vai. O fato é que eu precisava desmembrar partes que estavam pregadas há muitos anos. Como fazer? Com uma cunha, claro! Quem me falou da cunha foi um colega do curso técnico em construção naval que frequento noturnamente. Uma cunha! Nisso, meu amigo disse: "Eu faço uma cunha pra ti, pode deixar". Eu deixei. E ele deixou também. E como deixou... Cunha que é bom, até hoje, nada. Tudo bem. Pra encurtar a história, em uma aula prática lá no Senai, acabei conseguindo uma peça o mais parecida possível com o que eu precisava e desmembrei as partes do antigo móvel.

A mesinha um dia sai. Devagarzinho, mas sai. Só que o curioso nessa história toda foi o seguinte: cunha é uma ferramenta, correto? Sim. Mas, Cunha também é um sobrenome, correto? Sim. Pois é. Nisso de procurar imagens na internet da cunha que eu precisava, eu digitava no Google e o que aparecia? A ferramenta, correto? Sim e não. O que aparecia, sempre em primeiro plano, eram atualidades e mais atualidades e fotos e mais fotos do eminente presidente da Câmara dos Deputados, o Intrometidíssimo Sr. Eduardo Cunha, um dos políticos investigados pela operação Lava Jato.


O Cunha que não tinha nada a ver com o que eu precisava. 
Pouco sei sobre a trajetória política do cara, mas, por ser sondado pela operação que investiga o maior esquema de corrupção da história do Brasil, já dá pra ver que não se trata de flor-que-se-cheire. Contudo, convenhamos: que o cara seja mais uma laranja podre na política, não seria novidade; que ele faça de tudo para atrapalhar os passos da presidente, entende-se; que ele queira enriquecer de forma ilícita, infelizmente isso é praxe na politicalha. No entanto, atrapalhar um cidadão de bem, um pai de família, um benemérito mártir da depauperada educação brasileira, um pagador de impostos, enfim, atrapalhar, como eu dizia, a pesquisa que eu fiz de modelos de cunhas para desmembramento de madeiras é algo abominável e que, por si só, deveria causar à cassação do mandato desse cidadão sob a alegação de quebra de linha de raciocínio de terceiros, o que é, sim, um crime levemente hediondo.

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