quarta-feira, 10 de abril de 2013

Mínima quinquagésima terceira

Muitas portas podem ser abertas para nós. Especialmente as dos fundos.

Mínima quinquagésima segunda

A Verdade raramente aparece porque tem vergonha de seu corpo.

Mínima quinquagésima primeira

Os donos da verdade se gabam de sua propriedade, apesar de ela estar em plena desvalorização no mercado.

Mínima quinquagésima

A Fofoca, sempre vaidosa, adora os retoques que lhe dá sua amiga Verdade.

Mínima quadragésima nona

Contra o sentimento de inferioridade causado pela felicidade alheia, nada melhor do que um drinque de auto-estima.

Carta a meus amigos

(texto de Rodolfo Walsh, tradução minha)

Hoje faz três meses que morreu minha filha, María Victoria, depois de um combate com as forças do Exército. Sei que a maioria daqueles que a conheceram choraram por ela. Outros, que foram meus amigos ou me conheciam de longe, quereriam que chegasse até mim uma voz de consolo. Dirijo-me a eles para agradecer-lhes mas também para explicar-lhes como morreu Vicki e por que morreu.

O comunicado do Exército que publicaram os jornais não difere muito, nesta oportunidade, dos fatos. Efetivamente, Vicki era 2º Oficial da Organização Montoneros, responsável pela Prensa Sindical, e seu nome de guerra era Hilda. Efetivamente, estava reunida esse dia com quatro membros da Secretaria Política, que combateram e morreram com ela.

A forma em que ingressou em Montoneros não a conheço em detalhe. Aos vinte e dois anos, idade de seu provável ingresso, se distinguia por decisões firmes e claras. Por essa época começou a trabalhar no jornal La Opinión e em um tempo muito breve se converteu em jornalista. O jornalismo não lhe interessava. Seus companheiros a elegeram delegada sindical. Como tal teve de enfrentar, em um conflito difícil, o diretor do jornal, Jacobo Timerman, a quem desprezava profundamente. O conflito se perdeu e quando Timerman começou a denunciar como guerrilheiros a seus próprios jornalistas, ela pediu licença e não voltou mais.

Foi militar em uma vila miserável. Era seu primeiro contato com a pobreza extrema em cujo nome combatia. Saiu dessa experiência convertida a um ascetismo que impressionava. Seu marido, Emiliano Costa, foi detido no início de 1975 e não o viu mais. A filha de ambos nasceu pouco depois. O último ano de minha filha foi duro. O sentido do dever a levou a relegar toda gratificação individual, a empenhar-se muito mais além de suas forças físicas. Como tantos rapazes que de repente se tornaram adultos, andou aos saltos, fugindo de casa em casa. Não se queixava, somente seu sorriso se tornava um pouco mais esmaecido. Nas últimas semanas vários de seus companheiros foram mortos: não pôde deter-se a chorar por eles. Embargava-a uma terrível urgência por criar meios de comunicação na frente sindical que era sua responsabilidade.

Víamo-nos uma vez por semana; a cada quinze dias. Eram entrevistas curtas, caminhando pela rua, talvez dez minutos no banco de uma praça. Fazíamos planos para viver juntos, para ter uma casa onde conversar, recordar, estar juntos em silêncio. Pressentíamos, entretanto, que isso não ia acontecer, que um desses fugazes encontros ia ser o último, e nos despedíamos simulando valor, consolando-nos da antecipada perda.

Minha filha estava disposta a não entregar-se com vida. Era uma decisão madura, ponderada. Conhecia, por uma infinidade de testemunhos, o trato que dispensam os militares e marinheiros àqueles que têm a desgraça de cair prisioneiros: o esfolamento em vida, a mutilação de membros, a tortura sem limite no tempo ou no método, que procura ao mesmo tempo a degradação moral, a delação. Sabia perfeitamente que em uma guerra com essas características, o pecado não era falar, mas sim cair. Levava sempre consigo a pastilha de cianureto — a mesma com que se matou nosso amigo Paco Urondo —, e com a qual tantos outros obtiveram uma última vitória sobre a barbárie.

Em 28 de setembro, quando entrou na casa da rua Corro, completava 26 anos. Levava em seus braços sua filha porque no último momento não encontrou com quem deixá-la. Deitou-se com ela, de camisola. Usava umas camisolas largas que sempre ficavam grandes.

Às sete horas do dia 29 acordaram-na os alto-falantes do Exército, os primeiros tiros. Seguindo o plano de defesa combinado, subiu ao terraço com o secretário político Molina, enquanto Coronel, Salame e Beltrán respondiam ao fogo do térreo. Vi a cena com seus olhos: o terraço sobre as casas baixas, o céu amanhecendo, e o cerco. O cerco de 150 homens, os FAP* em riste, o tanque.

Chegou a mim o testemunho de um desses homens, um conscrito:

“O combate durou mais de uma hora e meia. Um homem e uma moça atiravam de cima, nos chamou a atenção porque cada vez que atiravam uma rajada e nós nos escondíamos, ela ria.”

Tratei de entender essa risada. A metralhadora era uma Fálcon e minha filha nunca tinha atirado com ela, ainda que conhecesse seu manejo por conta das aulas de instrução. As coisas novas, surpreendentes, sempre a fizeram rir. Sem dúvida era novo e surpreendente para ela que ante uma simples pulsação do dedo brotasse uma rajada e que ante essa rajada 150 homens se escondessem sobre os paralelepípedos, a começar pelo coronel Roualdes, chefe da operação.

Aos caminhões e ao tanque se somou um helicóptero que girava ao redor do terraço, tomado pelo fogo.

“De repente — diz o soldado — houve um incêndio. A moça deixou a metralhadora, ficou de pé sobre o parapeito e abriu os braços. Deixamos de atirar sem que ninguém ordenasse. Era fraquinha, tinha o cabelo curto e estava de camisola. Começou a nos falar em voz alta mas muito tranquila. Não lembro tudo o que disse. Mas lembro da última frase, na realidade não me deixa dormir. ‘Vocês não nos matam, disse, nós elegemos morrer.’ Então, ela e o homem levaram uma pistola às têmporas e se mataram na frente de todos nós.”

Abaixo já não havia resistência. O coronel abriu a porta e atirou uma granada. Depois entraram os oficiais. Encontraram uma bebê de pouco mais de um ano, sentadinha em uma cama, e cinco cadáveres.

No tempo transcorrido refleti sobre essa morte. Perguntei-me se minha filha, se todos os que morreram com ela, tinham outro caminho. A resposta brota do mais fundo do meu coração e quero que meus amigos a conheçam. Vicki pôde escolher outros caminhos, que eram diferentes sem serem desonrosos, mas o que escolheu era o mais justo, o mais generoso, o mais ponderado. Sua lúcida morte é uma síntese de sua curta, bela vida. Não viveu para ela, viveu para outros, e esses outros são milhões. Sua morte sim, sua morte foi gloriosamente sua, e nesse orgulho me afirmo e sou quem renasce dela.

Isto é o que eu queria dizer a meus amigos e o que desejaria que transmitissem pelos meios que sua bondade lhes dite.


* Fuzil automático pesado, de uso regular no Exército Argentino. (n.e.)

(Cuadernos de Marcha / Segunda época, Nº 2/1, Méxio DF, julio-agosto de 1979)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Mínima quadragésima oitava

O otimismo, muitas vezes, leva a gente longe, bem longe da realidade.