segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os sábados do Verão Teatro

 Abaixo, breves comentários a respeito das duas peças que estão rolando aos sábados na Casa Rua da Cultura neste início de ano através do projeto Verão Teatro. Vale a pena dar uma passada na Camerino para conferir. Verdadeira fechação!



Duas histórias de amor

Um café e uma história de amor. Um drink e outra história de amor. Está feito o espetáculo: simples como um café que tomamos cotidianamente e sofisticado como um vinho de sabor impecável após dez anos de maturação.

Os dez anos de maturação não são mero exercício de estilo do escritor desta coluna, mas sim a idade que grupo de teatro Caixa Cênica completa em dois mil e doze. Demonstrando incrível capacidade de cativar o público a partir daquilo que a arte teatral tem de mais essencial, os atores, o Caixa Cênica prova que bom teatro, na origem, não rima com produções dispendiosas ou virtuosismos corpóreos. Rima com o bom gosto, bom senso e meticulosidade na elaboração de cada detalhe.

O espetáculo Duas histórias de amor, que está em temporada na Casa Rua da Cultura até fevereiro, nos brinda com duas cenas curtas, duas histórias de amor com conflitos muito bem definidos e muito bem desenvolvidos. Percebe-se a plena preocupação com a cor de cada palavra dita e cada gesto manifestado. Diane Veloso e Thiago Marques estão super entrosados e dá gosto de ver o tanto que eles conseguem se comunicar com a plateia através de tão poucos recursos. Sem exageros, é um trabalho digno dos palcos mais disputados do mundo.

Vida longa ao Caixa Cênica e parabéns pelos dez anos de luta!



Antígona

Entrar na Sala Sergipana de Espetáculos para ver Antígona, da Cia. Stultifera Navis, é se deixar transportar para uma atmosfera completamente diversa da que estamos habituados. Velas vermelhas suspensas em lustres de arame entrelaçado manualmente, andaimes no cenário e muitos atores em cena. Um texto clássico com roupagem moderna, utilizando elementos da cultura africana. Trata-se de um espetáculo bastante impactante. A trilha sonora é um atrativo a parte, pois os atores são bem afinados e todos os sons do espetáculo são produzidos pelo elenco em cena, dispensando gravações e afins. É outro trabalho que valoriza o teatro na essência, na performance dos atores.

As tragédias gregas devem ser sim recicladas, independente do que disserem os mais ortodoxos. Se o mito de Antígona ainda é montado no século XXI, isso significa que ele tem relevância para os que hoje vivem, assim como teve para os que vieram antes de nós. Por isso, a Antígona da Stultifera está há quatro anos em cartaz, por ser um trabalho instigante que revira os sentimentos pertinentes a todos, e pela ousadia, que é outra coisa fundamental a quem faz teatro. Logo, o tom das tragédias é sujeito à apropriações da contemporaneidade de quem as encena.

Muito da encenação lembra o processo de criação do grupo Oficina, de Zé Celso Martinez Correa. A similitude advém da antropofagia, do choque entre culturas, tão característico na formação cultural brasileiro.

Evoé, Stultifera, e muito sucesso à Casa Rua da Cultura.

Verão Teatro

Sextas: Brigite Confidencial (19h) e Cabaret dos Insensatos (20h)
Sábados: Duas histórias de amor (20h) e Antígona (21h)
Até 11 de fevereiro na Casa Rua da Cultura.

Todos verão teatro na Casa Rua da Cultura


A Casa Rua da Cultura não para. Após a boa receptividade da quarta edição do Projeto Temporada, que nos últimos meses de 2011 propiciou ao público aracajuano a oportunidade de conferir oito espetáculos teatrais produzidos na cidade, está em andamento o projeto Verão Teatro, reunindo quatro espetáculos em temporada até o dia 11 de fevereiro. Oficinas de dança, circo e teatro completam a programação.

Lindemberg Monteiro, carioca radicado em Aracaju há pouco mais de 15 anos, é quem encabeça esses projetos e a Casa Rua da Cultura.

Demonstrando a persistência necessária a todo ativista cultural, o artista busca estabelecer o diálogo entre diferentes grupos cênicos e musicais de todo o Estado de Sergipe, além de buscar apoios governamentais e patrocínios variados para as produções da instituição, que é Ponto de Cultura desde 2005.

Muitas novidades estão por vir neste ano 2012 pela Casa. Quem ganha com isso é todo o público apreciador de arte.

Quais são as atrações do Verão Teatro?
Lindemberg – Depois do sucesso da última temporada, a gente pensou o seguinte: não podemos nos dar ao luxo de tirar em férias, a gente tem que continuar, aproveitar a época do Verão, em que a cidade está cheia de turistas e botar o teatro como opção de entretenimento. Serão quatro espetáculos: Duas histórias de amor do Caixa Cênica, Cabaré dos Insensatos e Antígona, da Stultífera Navis [grupo sediado na Casa Rua da Cultura], e Brigite Confidencial de Walmir Sandes. É preciso fazer a manutenção do público, para que em março a gente entre com oito espetáculos em temporada novamente. Estamos na expectativa de que o Verão Teatro entre na programação do Verão Sergipe 2013, o que seria maravilhoso para nossa iniciativa e para o conceito de investimento público em teatro como diversão, pareando com as demais atrações do Verão Sergipe.

Diante de sua experiência pessoal anterior a Sergipe, quais foram as potencialidades e deficiências que você viu na cultura sergipana?
Lindemberg – Tanto o teatro, como a música e a dança daqui têm muita qualidade. O que me fez ficar não foram os belos olhos da cidade, mas a riqueza artística. Nunca vislumbrei a possibilidade de mercado cultural por aqui. Aliás, saí do Rio de Janeiro justamente por conta dessa imposição de se fazer um teatro ditado pelas regras de mercado de lá. Tudo bem que o mercado ajuda a gente a pagar as contas, mas o que não dá é para ser refém dele. A nova geração do teatro daqui, por exemplo, tem um olhar diferenciado em suas produções, que estão cada vez mais ligadas em pesquisas aprofundadas sobre temas e textos que se afastam do lado mais regional, que já foi muito mais presente nas encenações.

O que é formação de público para você?
Lindemberg – É continuidade, é sistematização. Por isso que o Projeto Temporada está em cartaz. Porque se o público perdeu o espetáculo nessa semana, ele tem a outra semana para ir. Eu ainda não fui ver Missão Impossível 4, mas semana que vem eu consigo ir, se eu quiser, pois sei que está em cartaz. É esse sentimento que a gente tem que colocar no teatro. Tem que sistematizar. A Rua da Cultura é toda semana lá no mercado por causa disso, a Temporada também, que muda de três em três meses.

A Stultífera Navis vai estrear espetáculo novo em 2012?
Lindemberg – Sim. Vamos continuar com Antígona, que já está há quatro anos em cartaz, o que causa alguma estranheza nas pessoas, mas é um luxo para nós. Estamos preparando o espetáculo A Lição de Eugene Ionesco e O doente imaginário, o clássico de Molière. Pelo menos esses dois espetáculos a gente estreia neste ano. No entanto, tradicionalmente, a gente anda por um caminho e pega uns desvios e acabamos investindo em outras montagens também. Mas essas são as primeiras ideias.