quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Em menos de duas horas começa,
diante do rei, coisa assim sem jeito.
Por quem é, não deveria ter feito
tamanha ousadia o autor desta peça!

“Ora vamos, chega de discutir!
Pois, quer rir o rei? Voilá! Que assim seja!
Sou do tipo que com a pena almeja
às penas instruir e divertir.”

Sabe o autor que anseiam por resposta
hóspedes que na Escola veem querela
e dar pano pra manga acham preciso.

Entrar sem ensaiar ator não gosta,
mas encontro com rei não se cancela.
O que se faz, então? Ora, improviso!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cadernos














O cineasta que eu quero ser

Hoje, antes do trabalho, fui conferir o filme recente do Woody Allen, Para Roma, com amor. Quando eu fizer cinema, vai ficar difícil, porque ele esgota tudo o que eu gostaria de dizer. Faz parte. Volare!!!

O escritor que eu quero ser

Ainda escrevo contos assim. Não canso de me surpreender com Tchekhov.

CRONOLOGIA VIVA - Antón Tchekhov

O salão do Conselheiro de Estado Charamikin está mergulhado em agradável penumbra. A grande lâmpada de bronze, com seu quebra-luz verde, tinge, à maneira de uma "noite da Ucrânia", as paredes, os móveis, as fisionomias... De quando em quando, na lareira expirante, abrasa-se uma acha que se consome, e por um instante projeta nos rostos um clarão de incêndio. Isto, porém, não perturba a harmonia geral das luzes. O tom de conjunto, como diriam os pintores, mantém-se.

Ao pé da lareira, acha-se afundado em uma poltrona, na postura dum homem que acaba de jantar, Charamikin em pessoa, senhor idoso, de suíças cinzentas de funcionário, olhos de um azul doce. Transparece-lhe no rosto a benignidade. Um sorriso melancólico franze-lhe os lábios. A seus pés, sobre um mocho, com as pernas voltadas para a lareira e estirando-se preguiçosamente, está sentado o Vice-Governador Lopnef, galharda figura de cerca de quarenta anos.

Junto ao piano brincam os filhos de Charamikin – Nina, Kólia, Nádia e Vânia.

Do salão da Sra. Charamikin chega, pela porta entreaberta, uma luz tímida. Ali, sentada à secretária, vê-se Ana Pavlovna, presidenta do Comitê das damas da cidade — jovem senhora, viva e picante, dos seus trinta anos e mais alguma coisa. Através do lornhom, os olhos negros e vivos deslizam pelas páginas de um romance francês. Sob o romance encontra-se, dilacerado, um relatório do Comitê, do ano anterior.

— Antigamente, nesse ponto de vista — diz Charamikin, piscando os olhos pacatos à claridade dos tições morrediços —, nossa cidade era mais favorecida. Não se passava um inverno que não aparecesse alguma estrela. Tivemos atores e cantores célebres. E agora?... Sabe o diabo o que é! Afora prestidigitadores e tocadores de realejo, não vem mais ninguém. Nenhum prazer estético... Parece que vivemos no mato... Sim... Lembra-se, Excelência, daquele trágico italiano?... Como se chamava mesmo?... Um moreno, alto... Queira Deus que eu me lembre! Ah! sim! Luigi Ernesto di Ruggiero. Um talento notável... Que força! Era ele abrir a boca, e o teatro em peso estremecia. A minha Anniutotchka se interessava muito pelo talento dele. Conseguiu-lhe o teatro e vendeu bilhetes para dez espetáculos... Ele, em recompensa, lhe deu lições de declamação e de música. Um amor de homem! Ele esteve aqui... não vá eu enganar-me... há doze anos... Não, estou enganado... Menos, apenas dez. Anniutotchka, que idade tem a nossa Nina?

— Vai fazer dez anos — gritou Ana Pavlovna lá do seu escritório. — Por quê?

— Nada, minha filhinha, só para saber... E às vezes também vinham bons cantores... Lembra-se do tenore di grazia Priliptchin? Que amor de homem! Que aparência!... Um louro... semblante expressivo, maneiras parisienses... E que voz, Excelência! Só tinha um defeito: cantava algumas notas com o ventre e emitia o ré em falsete; no mais, tudo era bom. Dizia-se aluno de Tamberlick... Anniutotchka e eu conseguimos para ele o salão do Círculo, e, como prova de gratidão, ele cantava em nossa casa, dias e noites... Ensinava canto a Anniutotchka... Esteve aqui, lembro-me bem, pela Quaresma, isto há... doze anos. Não, mais!... Que memória, santo Deus! Anniutotchka, quantos anos tem a nossa pequena Nádia?

— Doze anos.

— Doze... se acrescentarmos dez meses... Exatamente... treze anos!... Antigamente havia na cidade — como direi? — mais vida... Vejamos, por exemplo, os nossos saraus de beneficência. Que belos saraus que houve... Que encanto! Tocava-se, cantava-se, declamava-se... Depois da guerra, lembro-me bem, houve aqui prisioneiros turcos. Anniutotchka organizou um sarau em benefício dos feridos. Rendeu mil e cem rublos... Os oficiais turcos ficaram doidos com a voz de Anniutotchka, e levavam o tempo a lhe beijar a mão. Eh! eh!... Apesar de asiáticos, são pessoas reconhecidas, os turcos. O sarau alcançou tamanho êxito que — imagine V. Exa. — eu anotei no meu diário. Isto foi, se estou bem lembrado, em 76... Não... Em 77... Não! Um momento! Quando foi mesmo que tivemos os turcos? Anniutotchka, quantos anos tem o nosso Kolitchka?

— Eu tenho sete anos, papai — disse Kólia, garoto trigueiro, de cabelos pretos como carvão.

— Sim, a gente envelhece — assenta Charamikin, sorrindo. — A nossa energia já não é a mesma... Eis aí a razão de tudo... A velhice, meu caro! Faltam precursores novos, e os velhos envelheceram... Já não se tem o mesmo ardor. Quando eu era mais moço, não gostava que as pessoas se aborrecessem... Era o primeiro a ajudar a nossa Ana Pavlovna... Tratava-se de organizar um sarau de beneficência, uma tômbola, de dar apoio a uma celebridade estrangeira? Eu largava tudo e metia mãos à obra... Um inverno, recordo-me bem, corri tanto, trabalhei tanto, que caí doente... Não posso esquecer esse inverno... Lembra-se do espetáculo que organizamos com a nossa Ana Pavlovna em benefício das vítimas do incêndio?

— Em que ano foi isso?

— Não faz muito tempo... Em 79. Não, creio que em 80. Um momento. Que idade tem nosso Vânia?

— Cinco anos — grita Ana Pavlovna lá do seu salão.

— Então foi há seis anos... Sim, meu caro, tantas coisas... Agora já não há nada disso! O ardor já não é o mesmo.

Lopnef e Charamikin meditam. A acha morrediça aviva-se pela última vez e se cobre de cinza.

(Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, Mar de histórias – Nova Fronteira, vol. 5, p. 126)
Fonte: http://contosbemcontados.blogspot.com.br/2008/06/cronologia-viva-anton-tchekov.html

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Por que a vida da gente não tem o regime all inclusive?

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Mínima quadragésima sétima

O Ócio e a Preguiça não devem ter televisão. Basta ver a
quantidade de filhos que eles botaram no mundo.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Mercado de Aracaju

Relógio do Mercado de Aracaju

terça-feira, 19 de junho de 2012

Mínima quadragésima sexta

A tecnologia nos tem deixado tão próximo,
mas tão próximo que chega a dar preguiça
sair para encontrar as pessoas.

Mínima quadragésima quinta

Se ansiedade fosse dinheiro, não haveria pobreza no mundo.

domingo, 17 de junho de 2012

Mínima quadragésima quarta

Entre a liberdade e a ditadura se encontra a classe média.

Mínima quadragésima terceira

Quem não tem tempo para fazer tudo o que mais quer talvez devesse querer fazer melhor tudo o que tem para fazer.

sábado, 16 de junho de 2012

Quantos golpes consegue nossa persistência levar antes que percamos a esperança?
É possível o ânimo durar para sempre?
Por que no início tudo é mais fácil?
Onde já se viu um arco-íris ser confundido com uma manifestação gay vinda do céu?
Se a lei é para todos, por que todos não se enquadram na lei? Todos é um grupo formados por todos e alguns? Alguns não se enquadram nas leis por quê? Quem são os alguns?

Mínima quadragésima segunda

Não se acha mais o significado de atenção
em meio aos avanços tecnológicos.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Definición del amor

Eu devia ter publicado esse poema no dia 12, dia dos namorados, mas vá lá. Lope de Vega deixou uma obra extraordinária. Conheci este soneto no filme Lope, de Andrucha Waddington. Por ter gostado demais deste poema, compartilho por aqui.

Desmayarse, atreverse, estar furioso,
aspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar fuera del bien, centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengano,
beber veneno por licor suave,
olvidar el provecho, amar el dano,

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengano,
esto es amor; quien lo probo, lo sabe.


(Lope de Vega, 1562-1635)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Mínima quadragésima primeira

Ao ser chamado de "Meu querido", ative
o mais rápido possível seu escudo anti-falsidade,
antes que o palavrório alheio lhe corrompa.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mínima quadragésima

O bem que te roubam hoje
não é nada mais nada menos 
do que o bem que te roubam hoje
e que vai te fazer falta amanhã.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A resposta

Era um dia normal, repleto de coisas normais. Como normalmente acontece no calçadão do comércio, as promotores de vendas entregavam panfletos aos transeuntes. Carlos foi abordado por um deles, que lhe entregou ofertas incríveis de eletrodomésticos e afins. Pouco depois de receber o papel, já longe da vista da pessoa, atira o papel ao chão, como normalmente faz. Mas o clima de Aracaju, como se sabe, é traiçoeiro, tem brisa intermitente e as ventanias são normais. Naquele dia, bateu um vento forte no calçadão, vento esse potencializado pelos prédios que o canalizavam, e formou um redemoinho de uns 3 metros de altura encorpado por muita poeira e lixo jogado no chão. O redemoinho perambulava caprichosamente por entre os pedestres. Carlos, quando menos esperava, foi surpeendido pela saraivada rodopiante que lhe empoeirou a roupa camisa, gravata e tudo mais. Entraram pela boca alguns grãos de areia que lhe fizeram tossir e cuspir por alguns momentos. O interessante do ocorrido foi ter o redemoinho se dissipado imediatamente após atingir o rapaz, comprovando um capricho climático. No chão, à sua frente, Carlos reparou naquele papel que havia desprezado há pouco e que havia integrado a massa do redemoinho. Abaixou-se para pegá-lo e observou-o com mais atenção. Havia ali o anúncio de um ventilador em liquidação. Mudando seu caminho normal, resolveu ir à loja para comprá-lo.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mínima trigésima nona

Se a gente soubesse por onde passou o dinheiro que a gente manuseia, as fábricas de luvas iriam enriquecer absurdamente.

domingo, 3 de junho de 2012

Meu professor de literatura

Aprendi a ler como todo mundo, na escola, por volta dos sete anos de idade. Mas ler de verdade, com gosto mesmo, só comecei aos quinze, já no colegial. Foi com um livro discreto, de capa dura, que descrobi mais tarde ter sido um primoroso trabalho de reencadernanção que nunca encontrei quem fizesse algual. O nome autor, Tchékhov, me passava uma imponência instigante à leitura. Me lembro muito bem de "A morte  do funcionário público", o primeiro conto daquela compilação chamada Histórias imortais. O conto trata da história de um funcionário público que ocupa cargo de pouca expressidade na repartição onde trabalha e que, certo dia, por infelicidade, acaba espirrando tão forte a ponto de atingir com perdigotos a nuca de um alto funcionário público sentado a sua frente numa sessão de teatro. O sentimento de culpa foi tamanho que o baixo funcionário se empenhou em desculpar-se diversas vezes com a vítima de seu poderoso espirro. Contudo, devido ao empenho excessivo, a vítima irritou-se e mandou o outro ir perturbar outra freguesia. Como resultado, o funcionário espirrão acaba morrendo de culpa. Morrendo mesmo. Incrível, não?! É muito humano. Simples, porém bastante simbólico.

Devorei o livro em poucos dias. Tchékhov é isso, é humano, é um autor que consegue tornar literárias as situações corriqueiras da vida da gente. Comprei outro coletânia de contos dele dia desses e estou adorando. O cara tá na moda! Basta ver que o Galpão fez extensa pesquisa sobre sua obra e a L&PM volta e meia lança um volume de seus contos e peças.

Anton Tchékhov foi meu primeiro professor de literatura.

sábado, 2 de junho de 2012

Mais Laranjeiras

Tirei essas fotos quando eu tinha acabado de chegar em Sergipe, em janeiro de 2011. City tour by Denys Leão.
Gruta da Pedra Furada

Gruta da Pedra Furada

Igreja Bom Jesus dos Navegantes

Pátio UFS

Pátio UFS

Pátio UFS

Vista do alto do morro Bom Jesus dos Navegantes

quarta-feira, 30 de maio de 2012

James Bond cinquentão




James Bond, um dos personagens mais famosos do cinema, está fazendo 50 anos. Quem diria... Se bobear, é a série de filmes mais duradoura do cinema, mesmo apresentando sinais de fraqueza.

Apesar de o contexto mundial ter mudado muito desde a década de 1960, quando foi lançado em plena Guerra fria, o personagem ainda existe. Inclusive, está para sair um novo filme, cujo nome na língua da rainha – que, diga-se de passagem, está fazendo 60 anos de reinado – será Skyfall. Com certeza, haverá o de sempre: muita ação, super carros, explosões, mulheres bonitas etc. Capaz de lançarem em 3D. Vamos aguardar. Torço para que haja também bons diálogos.

O 007 surgiu na época em que o padrão de beleza masculino incluía cigarro, cabelo no peito e, na verdade, mais lábia do que beleza. Botar hoje um ator tipo Sean Connery sem camisa num filme do 007 seria impensável.

Quando eu era adolescente, me deu na telha assistir a toda filmografia do James Bond. Lá ia eu todo final de semana à locadora perto de casa. No fim das contas, todos os filmes, principalmente os primeiros, são muito engraçados. O mais hilário para mim é o 007 Contra o foguete da morte, que se passa no Brasil e tem, como capanga do vilão, Jaws, um gigante de mais de dois metros de altura e dentes de aço. O que mais me chamou a atenção nesse filme foi a incrível escapada de 007 pelo rio Amazonas, que acaba desaguando incrivelmente nas Cataratas do Iguaçu. Penso que o Serviço Secreto Britânico deve treinar seus agentes com o manual básico de sobrevivência de Macunaíma, pois é a única explicação plausível para essa pérola geográfica.

Enfim, apesar de fora de moda e cada vez mais violento, vale dar uma conferida nas missões do agente secreto mais famoso da telona.

Laranjeiras - Algumas imagens

Tudo dando certo, em breve serei mais um laranjeirense no mundo!

Casa na frente da república de uns amigos meus

Outra casa na mesma rua

Tomara que não caia

Fico devendo o nome do santo padroeiro desta igreja

Ruína do teatro da cidade

terça-feira, 15 de maio de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Orquídeas no Shopping Jardins

As fotos abaixo, fi-las na exposição de orquídeas que foi realizada no Shopping Jardins nesse fim de semana especial às mães. Estava muito bonita a exposição. As plantas são criadas no Orquidário Sergipe. Mais informações em http://www.orquidariosergipe.com.br/.








segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cheiro de café

Chego do trabalho. Da casa vizinha, vem o cheiro do café que esqueci de comprar. Filo ou não filo? Vou dormir na vontade.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Falô, Millôr!

Millôr Fernandes, por Iéio

Que ironia: o artista de primeira grandeza Millôr Fernandes, um dos maiores entusiastas do teatro no Brasil, morreu justo no dia do teatro. Millôr é o cara que, através da escrita e das artes gráficas, deixa mais leve o masoquismo do brasileiro. Millôr, como Shakespeare e outros raros, nunca era, ele já é, e sempre será. Um cara assim não morre, não.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Perguntas



Acordo? Durmo? Levanto? Trabalho?
Visto? Faço? Amo? Lavo? Desisto?
Consigo? Ligo? Devo? Quero? Insisto?
Arrisco? Compro? Pego? Deixo? Encalho?
Entrego? Nego? Minto? Omito? Conto?
Desejo? Espero? Consinto? Acalento?
Pego? Pago? Jogo? Almejo? Desconto?
Persigo? Subo? Desço? Calo? Aumento?
Beijo? Esconjuro? Mato? Aperto? Abraço?
Apareço? Desapareço? Mato?
Deito? Rolo? Cozinho? Frito? Asso?
Como? Atrevo? Modifico? Arrebato?
De tanto perguntar-me, pouco vejo
virar realidade o que desejo.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Maldito teatro

Está para ser inventada coisa mais odiosa do que teatro, arte mesquinha que ou te toma por inteiro ou te frustra totalmente. Ou mesmo te toma por inteiro e ainda te deixa frustrado, pelo fato de nunca te deixar plenamente satisfeito com o trabalho realizado, e ser esse um dos motivos que leva o cidadão a continuar a ele se dedicando, para ver se um dia chega lá, se consegue numa peça agregar Tudo aquilo de relevante que deve ser compartilhado, sendo que esse Tudo é extremamente difícil de ser levado à cena, justamente por ele ser o que é: Tudo.

O teatro é absolutamente odioso para quem, por mera curiosidade, resolve um dia nele se aventurar e acaba gostando, por conta de aplausos e comentários. Vê-se, então, o quanto é poderosa sua comunicação e o quão único é o encontro entre ator e público, quão raro é na velocidade dos dias atuais esse espelhamento que o teatro proporciona. É um vírus sem antídoto, o teatro. Fera que escarnece daquele que, devido à urgência do aluguel, dele se afasta, tendo de investir o tempo em servir a interesses que pensa serem seus, quando na verdade são de outrem. Maldito teatro, mulher fatal, droga ilícita, besta fera, Exu, camisa de força, grilhão, desejo insano que a gente tenta conter, mas que ressurge como só ele, musa-fênix, ideia fixa, prova indelével do masoquismo artístico.

Quando uma pessoa opta pelo teatro, mesmo não se entregando a ele – o pior dos casos –, opta-se pela incerteza. Quando se opta pela incerteza, vive-se como cego à procura de Roma, sujeito a atolar em terreno de areia movediça.

Teatro como recalque, coisa enrustida, é a pior doença que há.

terça-feira, 27 de março de 2012

Sambô

Vi essa banda no "Esquenta", da Regina Casé. Adorei! Os caras são de Ribeirão Preto. Fiquei pensando na reação do Bono ao ouvir esta versão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Que fim da pirataria que nada

Sim , prenderam Kim Schmitz, o chefão do Megaupload. Fim da pirataria? Longe disso. Quem costuma baixar arquivos da internet sabe que o site do magnata alemão detido recentemente é apenas uma das muitas ferramentas existentes para se obter cópias piratas de filmes, livros, músicas e afins. Penso que a atitude do FBI pretende coibir a ação dos usuários desse material trocado virtualmente, contudo é certo que não vai mudar muita coisa.

E é criminoso quem faz downloads, é? É crime trocar cultura, usufruir de modo alternativo das obras dos artistas que a gente admira mas não tem dinheiro para comprar o disco ou dvd, é? Pois os artistas deveriam era ficar lisonjeados com saber que seus filmes e músicas estão bombando nos sites de compartilhamento ou nas mãos dos camelôs, afinal o que importa é estabelece contato com o público, não ficar na ilusão de que a venda não sei quantas cópias de seu trabalho vai te fazer um milionário esnobe que vai passar anos e anos sombreado pela própria obra, apenas colhendo os ganhos direitos autorais. Ademais, todos sabem que quem fatura mesmo são as grandes corporações da indústria fonográfica, cinematográfica e livreira.

Apenas digo que quando inventaram o jornal, falou-se em extinção do livro, quando inventaram a televisão falaram no final do cinema, quando inventaram o vhs e depois o dvd, falou-se novamente na morte do cinema, quando invetaram a internet, falaram da morte do jornal, do livro, do cinema, da televisão e da bezerra. Nesse ínterim, a pirataria sempre existiu, nenhuma dessas mídias foi extinta, e não será ela que acabará com a criatividade do ser humano. Quem acredita no contrário, está afirmando que a arte vale menos do que alguns megabytes.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os sábados do Verão Teatro

 Abaixo, breves comentários a respeito das duas peças que estão rolando aos sábados na Casa Rua da Cultura neste início de ano através do projeto Verão Teatro. Vale a pena dar uma passada na Camerino para conferir. Verdadeira fechação!



Duas histórias de amor

Um café e uma história de amor. Um drink e outra história de amor. Está feito o espetáculo: simples como um café que tomamos cotidianamente e sofisticado como um vinho de sabor impecável após dez anos de maturação.

Os dez anos de maturação não são mero exercício de estilo do escritor desta coluna, mas sim a idade que grupo de teatro Caixa Cênica completa em dois mil e doze. Demonstrando incrível capacidade de cativar o público a partir daquilo que a arte teatral tem de mais essencial, os atores, o Caixa Cênica prova que bom teatro, na origem, não rima com produções dispendiosas ou virtuosismos corpóreos. Rima com o bom gosto, bom senso e meticulosidade na elaboração de cada detalhe.

O espetáculo Duas histórias de amor, que está em temporada na Casa Rua da Cultura até fevereiro, nos brinda com duas cenas curtas, duas histórias de amor com conflitos muito bem definidos e muito bem desenvolvidos. Percebe-se a plena preocupação com a cor de cada palavra dita e cada gesto manifestado. Diane Veloso e Thiago Marques estão super entrosados e dá gosto de ver o tanto que eles conseguem se comunicar com a plateia através de tão poucos recursos. Sem exageros, é um trabalho digno dos palcos mais disputados do mundo.

Vida longa ao Caixa Cênica e parabéns pelos dez anos de luta!



Antígona

Entrar na Sala Sergipana de Espetáculos para ver Antígona, da Cia. Stultifera Navis, é se deixar transportar para uma atmosfera completamente diversa da que estamos habituados. Velas vermelhas suspensas em lustres de arame entrelaçado manualmente, andaimes no cenário e muitos atores em cena. Um texto clássico com roupagem moderna, utilizando elementos da cultura africana. Trata-se de um espetáculo bastante impactante. A trilha sonora é um atrativo a parte, pois os atores são bem afinados e todos os sons do espetáculo são produzidos pelo elenco em cena, dispensando gravações e afins. É outro trabalho que valoriza o teatro na essência, na performance dos atores.

As tragédias gregas devem ser sim recicladas, independente do que disserem os mais ortodoxos. Se o mito de Antígona ainda é montado no século XXI, isso significa que ele tem relevância para os que hoje vivem, assim como teve para os que vieram antes de nós. Por isso, a Antígona da Stultifera está há quatro anos em cartaz, por ser um trabalho instigante que revira os sentimentos pertinentes a todos, e pela ousadia, que é outra coisa fundamental a quem faz teatro. Logo, o tom das tragédias é sujeito à apropriações da contemporaneidade de quem as encena.

Muito da encenação lembra o processo de criação do grupo Oficina, de Zé Celso Martinez Correa. A similitude advém da antropofagia, do choque entre culturas, tão característico na formação cultural brasileiro.

Evoé, Stultifera, e muito sucesso à Casa Rua da Cultura.

Verão Teatro

Sextas: Brigite Confidencial (19h) e Cabaret dos Insensatos (20h)
Sábados: Duas histórias de amor (20h) e Antígona (21h)
Até 11 de fevereiro na Casa Rua da Cultura.

Todos verão teatro na Casa Rua da Cultura


A Casa Rua da Cultura não para. Após a boa receptividade da quarta edição do Projeto Temporada, que nos últimos meses de 2011 propiciou ao público aracajuano a oportunidade de conferir oito espetáculos teatrais produzidos na cidade, está em andamento o projeto Verão Teatro, reunindo quatro espetáculos em temporada até o dia 11 de fevereiro. Oficinas de dança, circo e teatro completam a programação.

Lindemberg Monteiro, carioca radicado em Aracaju há pouco mais de 15 anos, é quem encabeça esses projetos e a Casa Rua da Cultura.

Demonstrando a persistência necessária a todo ativista cultural, o artista busca estabelecer o diálogo entre diferentes grupos cênicos e musicais de todo o Estado de Sergipe, além de buscar apoios governamentais e patrocínios variados para as produções da instituição, que é Ponto de Cultura desde 2005.

Muitas novidades estão por vir neste ano 2012 pela Casa. Quem ganha com isso é todo o público apreciador de arte.

Quais são as atrações do Verão Teatro?
Lindemberg – Depois do sucesso da última temporada, a gente pensou o seguinte: não podemos nos dar ao luxo de tirar em férias, a gente tem que continuar, aproveitar a época do Verão, em que a cidade está cheia de turistas e botar o teatro como opção de entretenimento. Serão quatro espetáculos: Duas histórias de amor do Caixa Cênica, Cabaré dos Insensatos e Antígona, da Stultífera Navis [grupo sediado na Casa Rua da Cultura], e Brigite Confidencial de Walmir Sandes. É preciso fazer a manutenção do público, para que em março a gente entre com oito espetáculos em temporada novamente. Estamos na expectativa de que o Verão Teatro entre na programação do Verão Sergipe 2013, o que seria maravilhoso para nossa iniciativa e para o conceito de investimento público em teatro como diversão, pareando com as demais atrações do Verão Sergipe.

Diante de sua experiência pessoal anterior a Sergipe, quais foram as potencialidades e deficiências que você viu na cultura sergipana?
Lindemberg – Tanto o teatro, como a música e a dança daqui têm muita qualidade. O que me fez ficar não foram os belos olhos da cidade, mas a riqueza artística. Nunca vislumbrei a possibilidade de mercado cultural por aqui. Aliás, saí do Rio de Janeiro justamente por conta dessa imposição de se fazer um teatro ditado pelas regras de mercado de lá. Tudo bem que o mercado ajuda a gente a pagar as contas, mas o que não dá é para ser refém dele. A nova geração do teatro daqui, por exemplo, tem um olhar diferenciado em suas produções, que estão cada vez mais ligadas em pesquisas aprofundadas sobre temas e textos que se afastam do lado mais regional, que já foi muito mais presente nas encenações.

O que é formação de público para você?
Lindemberg – É continuidade, é sistematização. Por isso que o Projeto Temporada está em cartaz. Porque se o público perdeu o espetáculo nessa semana, ele tem a outra semana para ir. Eu ainda não fui ver Missão Impossível 4, mas semana que vem eu consigo ir, se eu quiser, pois sei que está em cartaz. É esse sentimento que a gente tem que colocar no teatro. Tem que sistematizar. A Rua da Cultura é toda semana lá no mercado por causa disso, a Temporada também, que muda de três em três meses.

A Stultífera Navis vai estrear espetáculo novo em 2012?
Lindemberg – Sim. Vamos continuar com Antígona, que já está há quatro anos em cartaz, o que causa alguma estranheza nas pessoas, mas é um luxo para nós. Estamos preparando o espetáculo A Lição de Eugene Ionesco e O doente imaginário, o clássico de Molière. Pelo menos esses dois espetáculos a gente estreia neste ano. No entanto, tradicionalmente, a gente anda por um caminho e pega uns desvios e acabamos investindo em outras montagens também. Mas essas são as primeiras ideias.