terça-feira, 29 de julho de 2008

Ascensão e queda do teatro amador


Poucos sabem, mas São Carlos já foi referência nacional em teatro amador. Nas décadas de 1960 e 1970, auge do movimento, a cidade chegou a sediar festivais nacionais, recebendo as maiores personalidades das artes cênicas brasileiras e promovendo o intercâmbio entre artistas. Em 1965, com a criação da Federação do Teatro Amador do Centro do Estado de São Paulo, a FETAC, o movimento ganha força. À época, São Paulo possuía aproximadamente quatrocentos grupos de teatro amador assistidos por 18 federações regionais, que, posteriormente, foram interligadas pela Confederação de Teatro Amador do Estado de São Paulo, a COTAESP. Muitos foram os personagens desse movimento. Dentre eles estava Névio Dias.

Natural de São Caetano do Sul, radicado em São Carlos desde 1953, Névio Dias não encontrava, no trabalho rotineiro junto à secretaria do Instituto de Física da USP São Carlos, impedimento para tocar suas atividades teatrais. Sua vontade de integrar-se ao movimento surge por causa da inquietação que lhe causava a visão das obras inacabadas do Teatro Municipal. Isso insuflou-lhe ânimo. Começou, então, a fazer contato com os administradores da cidade e com os grupos de teatro amador que aqui existiam. Névio Dias foi uma das peças-chave para a inauguração daquele espaço, a 22 de outubro de 1966, além de ter sido nomeado, em 1965, o primeiro presidente da FETAC.

Aos 85 anos de idade, Névio Dias demonstra disposição que muitos jovens não têm. Atualmente, ele tem se dedicado a livro de sua autoria no qual retrata o apogeu do teatro amador em São Carlos, entre os anos de 1965 e 1970. Segundo Névio, um dos fatores fundamentais para o movimento ter funcionado tão bem durante aproximadamente dez anos foi o desejo intenso de fazer teatro, a necessidade de manifestação contra o regime de exceção instaurado em 1964 e a vontade de lutar contra o conservadorismo da própria cidade. Névio diz ainda: “Havia também um espírito de liderança muito necessário à produção teatral amadora, mas isso foi se perdendo com o passar dos anos”.

Entre os fatores que enfraqueceram o movimento, estão os interesses políticos, aponta Névio. “A política local, por volta de 1976, começou a ver que aquilo dava mérito, visibilidade, e começou a tirar os amadores da jogada. Quando os dirigentes do teatro passaram a ser pessoas provindas de partidos políticos, o movimento começou a enfraquecer”.

A recente reforma do Teatro Municipal dividiu opiniões. Névio acredita que o atraso nas obras e os pequenos defeitos que o espaço continua tendo poderiam ter sido evitados. “Um dos problemas do projeto foi os responsáveis não terem colocado o arquiteto da reforma em contato com as pessoas que durante muitos anos estiveram na direção do teatro e sabiam dos defeitos que ele tinha, pois o teatro sempre teve alguns pequenos defeitos”. Névio diz que a parte técnica ficou melhor, mas que o palco e a platéia praticamente não mudaram.

A contribuição do movimento do teatro amador são-carlense foi muito além da materialidade do Municipal. Tal movimento reuniu membros de uma geração que, a exemplo de Névio Dias, possuía a vontade visceral de promover a comunicação através do teatro, vontade esta que foi perdida com o passar dos anos e necessita ser reavivada.

7 comentários:

Anna Kuhl disse...

Que boa surpresa este teu blog, Renato ! Como ativista do teatro sãocarlense, fiquei feliz de finalemente ler algo decente sobre o Névio, que econhecia apenas como "um cara que fez muito teatro em são carlos".

Serei visita constante e pitaqueira d'o Pitaqueiro.

Renato Capella disse...

Vale mesmo a pena bater um papo com o Sr. Névio. Ele é do tipo que já vem com o fubá enquanto a gente ainda nem foi com o milho.
Volte sempre ao Pitaqueiro, sim!

Anônimo disse...

Renato, a meu ver, você deveria "escrever" a biografia do Sr. Névio ou ajudá-lo em sua auto-biografia. Desculpe o termo, mas "esse cara" é demais!!! Divulgue-o mais! Vale a pena! Futuramente, ele poderá ser um personagem de uma (sua)própria peça de teatro. Se eu fosse você, conseguiria dele tudo o que fosse possível. Ele sabe demais, além de uma simpatia exagerada!
Parabéns, filho, por tê-lo conhecido e publicado no JANELA ABERTA essa entrevista. Ele merece espaço maior, melhor,e muito, mas ........muito APLAUSO!!!

Zezé

Anônimo disse...

O Sr.Névio,para quem nao o sabe,viveu e vive a informaçao,a arte,a cultura,o saber....
Parabens Sr. Nevio!E Muito obrigado Deus por ter me dado a oportunidade de conviver com ele este meus 54 anos........

binho disse...

O Sr. Nevio Dias é um ser extremamente dedicado e decidido.
Ele foi uns dos quantos que viveu e vive as belezas e amarguras do Teatro !Ele é um axemplo de determinação a ser seguida por todas as gerações que ai estão.Não poderia ter recebido presente melhor do que ter ele como exemplo.
Binho
25/09/2009

ana amelia barros disse...

Gostaria de te-lo conhecido.

ana amelia barros disse...

Gostaria de te-lo conhecido.