domingo, 23 de agosto de 2015

Diz-se: "vão-se os anéis, ficam os dedos"
Se algum pertence nos é afanado

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Homem-bomba

Em uma empresa. A notícia da demissão do Silas corre como fogo em rastro de pólvora.

FUNCIONÁRIO 1
Ei, você viu o Silas?

FUNCIONÁRIO 2
Que que tem o Silas?

FUNCIONÁRIO 1
Foi mandado embora por justa causa.

FUNCIONÁRIO 2
Foi mesmo? Por quê?

FUNCIONÁRIO 1
Deu um desfalque na empresa.

FUNCIONÁRIO 2
Quem disse?

FUNCIONÁRIO 1
Estão dizendo aí.

*

FUNCIONÁRIO 3
Não acredito. Tão bonzinho ele.

FUNCIONÁRIO 2
Quer saber, ele nunca me enganou. Lembro de como ele olhava para a mulher do chefe.

*

FUNCIONÁRIO 4
Jura? Que babado!

FUNCIONÁRIO 3
Pois é. Foi porque roubou uma bolada da empresa e ainda tinha caso com a mulher do gerente.

FUNCIONÁRIO 4
Eu soube que o cara andava meio revoltado, parecia que usava drogas, mas daí a fazer essas coisas.

FUNCIONÁRIO 3
É, e não era ele que sempre dizia que tinha vontade de explodir tudo isso aqui?

*

FUNCIONÁRIO 5
Homem-bomba, o Silas?
FUNCIONÁRIO 4
Ele compra bombas com dinheiro do tráfico.

FUNCIONÁRIO 5
Tráfico?

FUNCIONÁRIO 4
Sim, dinheiro do tráfico.

*

FUNCIONÁRIO 6
Mentira...

FUNCIONÁRIO 5
Pois eu to dizendo. Ele tinha um caso com o gerente, e os dois estavam armando explodir o prédio.

FUNCIONÁRIO 6
Ah, então estão explicadas as horas extras...

FUNCIONÁRIO 5
As bombas os dois compram traficando mulheres para prostituição na Europa.

FUNCIONÁRIO 6
E o desfalque na empresa?

FUNCIONÁRIO 5
Foi a mulher do gerente que exigiu dinheiro para abafar a traição do marido.

*

FUNCIONÁRIO 7
Você só pode estar brincando...

FUNCIONÁRIO 6
De jeito nenhum! E o próximo alvo deles, depois de explodir aqui, é Brasília.

*

Funcionário trabalhando com televisão ligada. Notícia: “A Polícia Federal investiga a ligação de servidores públicos com o tráfico internacional de mulheres. O maior suspeito da investigação é acusado de portar bombas para causar pânico na população. A vigilância nas ruas tem aumentado, no intuito...”. Silas entra carregando uma mochila. Volta e meia, olha pro relógio.

SILAS
Bom dia, pessoal!

TODOS OS FUNCIONÁRIOS
Silas!!!

FUNCIONÁRIO 1
Você não levou justa causa?

FUNCIONÁRIO 2
Você não tinha caso com a mulher do chefe?

FUNCIONÁRIO 3
Cadê as mulheres do tráfico?

FUNCIONÁRIO 4
Então, você é gay!

FUNCIONÁRIO 5
Tem bomba nessa mochila aí?

FUNCIONÁRIO 6
Quem matou PC Farias?

FUNCIONÁRIO 7
Qual era o nome dos Três Patetas?

SILAS
Larry, Moe e Curly!

TODOS
Aê, garoto!

SILAS
Gente, deixa eu dizer uma coisa pra vocês: é tudo mentira isso que estão dizendo. Na verdade, a gente combinou com a televisão para dar esse trote em vocês, porque o clima andava muito sério por aqui. E pra comemorar, [pega um rádio portátil e põe pra tocar] trouxe um pagodinho pra dar uma animada. Vamos lá gente. Putz, esqueci de uma coisa, gente! Só um minuto, volto já.

Os outros funcionários estão entretidos com o som e a surpresa, esquecidos das especulações anteriores. De repente, a bomba que Silas deixou explode e não deixa ninguém vivo.




São Cristóvão, 13 de maio de 2013

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Questão de tonicidade

Estou trabalhando tonicidade com os sextos anos para os quais dou aula. Procurando por atividades na internet, acabei me deparando com os ótimos exercícios do Blog da Nani (http://www.blogdanani.com.br/2010/08/tonicidade-exercicios-de-fixacao-com.html), dentre eles, o que se segue:]

2 – Cada item só emprega palavras da mesma classificação quanto à tonicidade. Classifique as palavras de cada item: 
a) Muito fraco esse palhaço, gente! 
b) Achei genial. Aplaudi demais. 
c) Espetáculo engraçadíssimo! Esplêndido! 

Achei ótima a ideia de desenvolver frases utilizando palavras com apenas um tipo de sílaba tônica e acabei desenvolvendo as minhas:

Mamãe, papai estudou alemão até adormecer.

Carlos Alberto falta praticamente todo dia.

Mesmo enquanto estamos dormindo pesado, estamos pensando insistentemente.

Indígenas bêbados: sílabas poéticas engraçadíssimas.

Fleumático asiático cibernético, antibiótico diário.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Cartas

Em casa, Gregório chega com cartas, bastante animado, eufórico.

GREGÓRIO
Amor, vc não vai acreditar.

CLARICE
No quê?

GREGÓRIO
Chegou carta pra gente!

CLARICE
Ai, não acredito! Que maravilha! De quem? De quem? De quem?

GREGÓRIO
Do banco, amor!

CLARICE
Do banco? Ai, que emoção! E tem mais carta aí?

GREGÓRIO
Sim! Tem também do cartão, da luz, da água, IPTU, NET, da financeira e uma outra que vc não vai acreditar...

CLARICE, ansiosa
Ai, fala logo! Vai, fala...

GREGÓRIO
Do Serasa!

CLARICE
Que demais! Tô emocionada!

GREGÓRIO, dando as cartas
Abre você!

CLARICE, abrindo os envelopes
Vamos ver essa do cartão primeiro. Ai, tão gentil o cartão mandar uma carta pra gente. Poxa, e eu que disse ontem que não recebia mais cartas, lembra?

GREGÓRIO
Lembro.

CLARICE
Olha só que amor: Prezado cliente, favor quitar as faturas vencidas. Que gentileza, Gregório, eu fico emocionada. Deixa eu ver mais. [levando um susto de alegria] Não acredito! O total da fatura está o dobro da fatura anterior! Incrível como esse cartão é capaz de multiplicar o dinheiro!

GREGÓRIO
Pois é, desse jeito, a gente vai ajudar ele a bater mais um recorde de lucro, Clarice! Já pensou nisso?

CLARICE
Não é?! Me dá orgulho fazer parte disso. [pausa] Ai, tô ansiosa.

GREGÓRIO
Por quê?

CLARICE
Pra ler a cartinha do Serasa.

GREGÓRIO
Eita, eu também estou. Já abriu?

CLARICE
Já, tá aqui. [respira fundo e lê] “Prezado(a) Senhor(a), em cumprimento ao art.43, parágrafo segundo, da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, comunicamos a abertura de cadastro em seu nome — [emocionada] ele abriram um cadastro pra gente! —, no qual serão registradas as obrigações de sua responsabilidade, por solicitação dos credores”. Gregório, como o Serasa é atencioso com a gente. Ele está lembrando das nossas dívidas. Ou seja, ele está cuidando do nosso dinheiro!

GREGÓRIO, lendo algumas outras contas
É! E olha aqui: a luz subiu 50%, a água está mandando aviso de corte, o cartão da C&A veio cobrando um monte de serviço que a gente não pediu e a NET veio 3 vezes o valor normal. Amor, eu nem sei o que dizer... São muitas novidades ao mesmo tempo, tanta gente se importando com a gente, querendo o nosso bem... É por essas e outras que eu não perco a esperança na humanidade.

CLARICE
Ei, a gente precisa comemorar! Vamos sair? Pegar um cinema, uma pizza etc?

GREGÓRIO
Só se for agora! Está com os cartões na bolsa?

CLARICE
Tô.

GREGÓRIO
Eles têm limite?

CLARICE
Não, nenhum.

GREGÓRIO
Então, pega o detergente.

CLARICE
Pra que o detergente?

GREGÓRIO
Pra gente lavar os pratos na pizzaria.

CLARICE
Boa idéia!

Toca a campainha. Gregório vai abrir a porta. É um oficial de justiça.

GREGÓRIO
Amor, olha quem veio visitar a gente! Um oficial de justiça!

OFICIAL DE JUSTIÇA
Eu vim confiscar o carro de vocês por conta de dívidas. Como vocês podem ver aqui...

GREGÓRIO
Amor, ele vai ficar com o nosso carro! Finalmente, a gente vai aderir ao movimento cidade limpa! Muito obrigado, Sr. Oficial! Quer comer uma pizza com a gente? Você dá uma carona?



Aracaju, 4 de maio de 2013



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Bonde de Versalhes

Em meados de 2012, minha amiga Imara Reis entrou em contato comigo para pedir uma mão na peça que estava dirigindo com alunos de uma escola de teatro de Santo André. Eu morava em Aracaju à época, o que me impossibilitava viajar para acompanhar o processo de montagem, estar mais presente, conhecer o elenco, coisas assim. Contudo, a experiência acabou se tornando bastante rica, pois me botou mais próximo ao universo de Molière - a propósito, a peça montada foi uma adaptação do "Improviso de Versalhes" - e tirou as teias de aranha de minha veia poética (não gosto desta expressão, mas foi a única coisa que me veio à cabeça agora). 

Minha participação resumia-se em escrever a canção de abertura da peça (ei-la abaixo...) e uma versão em português da canção "Qu'est-ce qu'on attend pour être heureux". Tudo foi feito a muitas mãos. A tarefa na qual estive mais solitário foi na de escrita da letra abaixo, em que busquei emular o estilo de versificação utilizado pelo dramaturgo francês. Acredito que fui razoavelmente bem sucedido, apesar de sempre nos sentirmos muito aquém dos mestres.

Aproveito para agradecer publicamente à Imara pelo convite, e aos amigos Dudu Jazedje e Pedro Kebbe, músicos que colaboraram crucialmente na elaboração da melodia dessa canção de abertura. 

Tomara que me surjam outras oportunidades iguais a essa. Se bem que, caso não surjam, eu bem que poderia criá-las. 


BONDE DE VERSALHES


Molière foi do rei o autor preferido
e com o que escreveu causou grande alarido
em cena colocou a farsa de um marquês
cioso pra não ser mais um corno francês
Seu plano fracassou, pois sua escolhida
não era sem noção mas sim muito sabida
Pois isso iniciou um duelo de penas
em que os palcos então fizeram vez de arenas

Dê logo seu sinal não perca seu assento
que o Bonde de Versalhes é só divertimento

Perdendo a politesse, um fraco literato
que muito se doeu, fez logo desacato
tentando desbancar o dileto real
mas este não se acanha e pega e faz igual
também responde em peça a peça que o atacou
e o toma lá dá cá, o caldo avolumou
Até velho Corneille, o mestre das tragédias
no grupo de Boursault entrou nessas comédias

De ator natural a marquês sorumbático
O Bonde de Versalhes é muito democrático

Com mais o que fazer, ciente dos ciúmes
dos de fora do paço, que acabam-se em queixumes
decide o nosso autor dar um ponto final
nessa querela Cult pra não acabar mal
numa peça-improviso assim meio esquelética
mas cheia de vigor expôs sua poética
agradando outra vez, cumprindo seu mister
e os fãs em coro gritam: Viva, Molière!

Segure o seu lugar escolha uma bebida
o Bonde de Versalhes é festa garantida



Aracaju, 17/08/2012

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Canto curricular

Nome: Renato Barbosa Capella.
Vinte e três anos, recém formado em
Letras. Sou eu um dos muitos que apela
um bom emprego que me dê vintém
para tocar minha vida, pois ela 
só prossegue se meios ela tem.
Me apresento, de farra, com o anzol
dos versos que Camões configurou.

Escolas de bom nível me ensinaram
a ler o universo em amplitude,
e os dotes que na Unesp me legaram
compreendem, digamos, um açude
de onde saco o que mestres já sacaram,
revolvendo o saber com atitude,
torrentes de conhecimento humano,
deste atingindo o escondido tutano.

Meu gosto pelas artes provém de
herança familiar. Jóias raras 
me deixou meu pai. Dirá, quem entende,
que Sosa, Chico ou Tchekhov são preclaras
pessoas. Sim, conhecê-las me acende
furor criativo sem anteparas
e o sonho de a eles ser seguidor
e com igual eloqüência me expor.

Na sétima arte já fiz incursão
nos curtas que atuei tive o prazer
de ver os filmes tal como eles são,
feitos da alvorada ao anoitecer,
ou vice-versa, sempre na intenção
de, com empenho, conseguir fazer
que imagens em movimento fixadas
despertem na gente emoções guardadas.

É no teatro, porém, que me espalho
me choro e rio e gozo sem ter fim
pois no palco, dizendo textos, malho,
qual elefante pisando em jasmim,
tantas aflições que me dão trabalho,
ervas daninhas, do mundo capim.
O teatro, apesar da pequeneza,
é semente de glória e de grandeza.

Dispo-me alegre da realidade
vestindo textos, me banhando em luz
olhos e ouvidos com facilidade
penetro na relação que conduz
uma platéia, em fugaz liberdade,
curtir a ilusão que a cena produz.
Quanto mais indivíduos ilusiono,
cada vez mais do palco me apaixono.

Escrevo bem, modéstia não afeto.
Logo, quero com isso me lançar,
fazer-me notar com o que caneto.
Seja no prosar ou no versejar
Seja na gíria ou no escrever correto
o que desejo é me comunicar.
Palavras, seiva de minhas andanças,
em vós empenho insanas esperanças!

Não tenho habilidade no desenho,
mas tenho amigos nisso talentosos
parcerias já fizemos no empenho
de demonstrar como são saborosos
os textos que, ilustrados, melhor cenho
divulgam a leitores venturosos.
Das letras o singelo colorido
se expande nas figuras exprimido.

Das habilidades: atuo, escrevo,
arranho espanhol, inglês e francês.
No computador, sem medo me atrevo
a fuçar e a aprender o internetês.
Enfim, faço versos, dando relevo
a fatos miúdos que nunca têm vez.
Textos, papelada? Tudo organizo!
Situações adversas? Vou de improviso!

Diz o dito: "O futuro a Deus pertence".
Pitaqueiro que sou, o dito redigo:
O futuro, que o dinheiro o compense!
Não me faltando comida ou abrigo,
já me sinto satisfeito. Porém, se
sobrar algum cascalho, caro amigo,
não há quem me supere em alegria,
promovo um carnaval do dia-a-dia!


São Carlos, 29 de dezembro de 2009

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Cuidadosamente

Em uma empresa.

JURACI
Paulo, chega aqui um minuto.

PAULO
Diga aí, que que foi?

JURACI
Me ajuda nesse email, por favor? É pro gerente regional:

"Ilmo Sr. Glauber,
Primeiramente, tomo a liberdade de aproveitar este ensejo para parabenizar-te pelo excelente desempenho na administração desta empresa, cuja extraordinária relevância no mercado atual deve-se quase que exclusivamente a todo seu empenho de empreendedor justo, honesto e cordial.
Em anexo, envio-lhe o relatório de produção da filial NE8200 referente ao mês de abril de 2013.
Cuidadosamente,
Juraci Fontes"

E aí? Que que você achou?

PAULO, depois de uma pausa enfática
Bom, Jura, olha só...

JURACI
Juraci! Juraci! Você sabe que eu não gosto de ser chamado de Jura.

PAULO
Certo, Jura, quero dizer, Juraci, vamos lá. Me responde uma coisa: você quer ter um caso com o gerente regional?

JURACI
O que é isso, Paulo? Nada a ver.

PAULO
Você acabou de virar gerente. Já está querendo ser promovido de novo?

JURACI
Não... Acho que não é o momento. Por quê?

PAULO
Você tá de caso com a mulher do cara?

JURACI
Não, eu com a mulher do chefe? Tá louco, Paulo?

PAULO
Então, pra que um email cheio de frescura assim? Você vai mudar tudo isso aí, pode apagar tudo.

JURACI
Mas tudo, tipo tudo? Não dá pra aproveitar nada?

PAULO
Tá, tá, tá, você quer aproveitar alguma coisa, então vamos ver. “Ilmo Sr. Glauber”, isso é formal demais, Jura [tosse]... Juraci. Tira, ou melhor, troca por “Caro” ou “Prezado”, um tratamento assim mais de igual pra igual, sem essa subserviência.

JURACI
Mas isso é só uma forma de tratamento respeitosa, afinal o cara é o nosso superior.

PAULO
Sim, é uma forma de tratamento afetada de tratar o nosso superior, isso sim. Pode tirar. Agora, isso aqui: “Primeiramente, tomo a liberdade de aproveitar este ensejo para parabenizar-te”.  Escuta, ninguém mais sabe usar segunda pessoa do singular.

JURACI, vaidoso
Eu sei.

PAULO
Sim, mas é pedante. Superior não gosta de gente pedante. Superior gosta de tudo preto no branco, sem lero-lero. Faz assim: “Caro Sr. Glauber,...” e tira “Primeiramente, tomo a liberdade blá, blá, blá...”. Aliás, pra que tanto parabéns pro cara?

JURACI
Ué, porque o cara é o gerente regional e faz muito pela empresa.

PAULO
Quem te disse isso, Jura... ci? O cara foi capa da Veja? Da Forbes? O gerente regional já te pagou um pastel e um chops?

JURACI
Cara, não, mas ele é o gerente regional, então...

PAULO
Então, nada, Juraci. Você está mandando este email para quê?

JURACI
Pra mandar o relatório de produção e...

PAULO
E mais nada, Jura...

JURACI
... ci. Meu nome é Juraci.

PAULO
Tá, tá. Faz assim: pega e corta essas coisas que eu te falei e pega também o [Paulo vai lendo rápido e comentando o email enquanto lê] “cuja — quem usa cuja? — extraordinária relevância no mercado atual — tá, falou, Sardenberg — deve-se quase que exclusivamente a todo seu empenho de empreendedor  justo, honesto, cordial e constante em seu labor diário — é o homem do ano, esse gerente! — no trato com colaboradores e demais demandas.”. Deixa eu selecionar isso tudo aqui, pronto, e... delete! Agora, esse ”Cuidadosamente” foi a cereja do bolo. De onde você tirou isso?

JURACI
Ué, pra mostrar que eu cuidei desse serviço com cuidado.

PAULO
Tá, então, no dia em que você estiver com preguiça, você vai colocar “Preguiçosamente”?

JURACI
Pô, não, senão vou queimar meu filme.

PAULO
Então, não tente expressar tanto seus sentimentos num email que nem esse. Terminei de ajeitar. Olha como ficou:
"Caro Sr. Glauber,
Em anexo, o relatório de produção da nossa filial.
Att, Juraci Fontes"

JURACI, meio desapontado
Ficou seco, né?

PAULO
Ficou como tem que ser. Cadê o enviar? Aqui. [clica em enviar] Pronto.
  
JURACI
Bom, obrigado, eu acho.

PAULO,
De nada.  Ah, espera aí, faltou corrigir uma coisa. Juraci não é nome de mulher? Minha tia se chama Juraci.

Enquanto passam os créditos, o Paulo fica dizendo alguns advérbios e o Juraci vai improvisando à medida que vai ouvindo, ou seja, o Juraci vai sentindo o que o advérbio diz e expressando isso com o corpo. Exemplos: Agradecidamente, Encarecidamente, Comiseravelmente, Miseravelmente, Satisfatoriamente, Atenciosamente, Carinhosamente, Atentamente, Sorridentemente, Apaixonadamente, Temerosamente, Caridosamente, Excepcionalmente, Raivosamente, Justamente, Puxassacalmente.

São Cristóvão, 1 de maio de 2013

terça-feira, 19 de maio de 2015

Corrupção cunhada

A cunha que eu precisava.
Há dias, ando obcecado por um pequeno projeto doméstico. Trata-se de uma mesinha de madeira que quero fazer e dar de presente a minha filha. Para tanto, estou desmembrando um móvel velho que estava aqui em casa. Ele era composto por peças de madeira maciça (pinus) e MDP (Medium Density Particleboard). Minha ideia é aproveitar as peças de madeira, que eram mais de setenta por cento do móvel. Até aí, ok. Mas, tem um detalhe: cadê as ferramentas de carpintaria? Apesar de eu gostar muito de trabalhar a madeira, não tenho o material necessário para tanto. Daí, devagarzinho vou pegando uma dica aqui, outra ali, descubro uma ferramenta nova e por aí vai. O fato é que eu precisava desmembrar partes que estavam pregadas há muitos anos. Como fazer? Com uma cunha, claro! Quem me falou da cunha foi um colega do curso técnico em construção naval que frequento noturnamente. Uma cunha! Nisso, meu amigo disse: "Eu faço uma cunha pra ti, pode deixar". Eu deixei. E ele deixou também. E como deixou... Cunha que é bom, até hoje, nada. Tudo bem. Pra encurtar a história, em uma aula prática lá no Senai, acabei conseguindo uma peça o mais parecida possível com o que eu precisava e desmembrei as partes do antigo móvel.

A mesinha um dia sai. Devagarzinho, mas sai. Só que o curioso nessa história toda foi o seguinte: cunha é uma ferramenta, correto? Sim. Mas, Cunha também é um sobrenome, correto? Sim. Pois é. Nisso de procurar imagens na internet da cunha que eu precisava, eu digitava no Google e o que aparecia? A ferramenta, correto? Sim e não. O que aparecia, sempre em primeiro plano, eram atualidades e mais atualidades e fotos e mais fotos do eminente presidente da Câmara dos Deputados, o Intrometidíssimo Sr. Eduardo Cunha, um dos políticos investigados pela operação Lava Jato.


O Cunha que não tinha nada a ver com o que eu precisava. 
Pouco sei sobre a trajetória política do cara, mas, por ser sondado pela operação que investiga o maior esquema de corrupção da história do Brasil, já dá pra ver que não se trata de flor-que-se-cheire. Contudo, convenhamos: que o cara seja mais uma laranja podre na política, não seria novidade; que ele faça de tudo para atrapalhar os passos da presidente, entende-se; que ele queira enriquecer de forma ilícita, infelizmente isso é praxe na politicalha. No entanto, atrapalhar um cidadão de bem, um pai de família, um benemérito mártir da depauperada educação brasileira, um pagador de impostos, enfim, atrapalhar, como eu dizia, a pesquisa que eu fiz de modelos de cunhas para desmembramento de madeiras é algo abominável e que, por si só, deveria causar à cassação do mandato desse cidadão sob a alegação de quebra de linha de raciocínio de terceiros, o que é, sim, um crime levemente hediondo.

domingo, 28 de dezembro de 2014

A cidade ideal


As cidades são produtos do aumento da população e da hegemonia – ou deveríamos dizer infestação? – do ser humano sobre a terra. Só no Brasil, são mais de cinco mil. Cinco mil! Cada uma com sua vocação, sua história, sua população viva, seus mortos, seus crimes ambientais, e outros crimes também, corrupções, demências e genialidades. Cidade, assim como gente, também tem personalidade.

Difícil definir o ideal nesse assunto, porque cada ser humano tem a tal da subjetividade, definidora de seus principais interesses e do que ele procura no lugar onde mora. Daí, a dica de procurar morar sempre na cidade que mais atenda a seus anseios, sua subjetividade.

Demorei mas encontrei minha cidade ideal, eu acho. É Itajaí, no litoral de Santa Catarina. Mas, ideal por quê? Por causa do que ela representa para mim, um lugar promissor, onde posso me preparar para uma melhor colocação profissional, um lugar onde me sinto bem, onde posso ir pra todo canto de bicicleta sem pegar ladeiras, onde há muita gente boa e simpática, belas praias e um rio estupendo, que é o Itajaí-Açu. E esse negócio de que aqui é lugar de catástrofes naturais e alagamentos é exagero, pois a vida aqui segue como em qualquer outra cidade brasileira. Claro que há sempre um pé atrás por conta das enchentes de anos passados, contudo o que aqui ocorreu vez ou outra acontece todo ano no Verão lá de São Paulo, meu berço de concreto.

A vida é dinâmica e eu sou um ser humano. Como tal, tenho subjetividade e esta me impele a permanecer em Itajaí por tempo indeterminado. Entretanto, a vida tem a tal da objetividade que pode fazer com que eu tenha que me mudar novamente. Caso isso ocorra, ficará a alegria dos dias vividos nesta cidade e a judiaria de ter de deixá-la, mescla de sentimentos que ainda não vivi.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Mínima quinquagésima terceira

Muitas portas podem ser abertas para nós. Especialmente as dos fundos.

Mínima quinquagésima segunda

A Verdade raramente aparece porque tem vergonha de seu corpo.

Mínima quinquagésima primeira

Os donos da verdade se gabam de sua propriedade, apesar de ela estar em plena desvalorização no mercado.

Mínima quinquagésima

A Fofoca, sempre vaidosa, adora os retoques que lhe dá sua amiga Verdade.

Mínima quadragésima nona

Contra o sentimento de inferioridade causado pela felicidade alheia, nada melhor do que um drinque de auto-estima.

Carta a meus amigos

(texto de Rodolfo Walsh, tradução minha)

Hoje faz três meses que morreu minha filha, María Victoria, depois de um combate com as forças do Exército. Sei que a maioria daqueles que a conheceram choraram por ela. Outros, que foram meus amigos ou me conheciam de longe, quereriam que chegasse até mim uma voz de consolo. Dirijo-me a eles para agradecer-lhes mas também para explicar-lhes como morreu Vicki e por que morreu.

O comunicado do Exército que publicaram os jornais não difere muito, nesta oportunidade, dos fatos. Efetivamente, Vicki era 2º Oficial da Organização Montoneros, responsável pela Prensa Sindical, e seu nome de guerra era Hilda. Efetivamente, estava reunida esse dia com quatro membros da Secretaria Política, que combateram e morreram com ela.

A forma em que ingressou em Montoneros não a conheço em detalhe. Aos vinte e dois anos, idade de seu provável ingresso, se distinguia por decisões firmes e claras. Por essa época começou a trabalhar no jornal La Opinión e em um tempo muito breve se converteu em jornalista. O jornalismo não lhe interessava. Seus companheiros a elegeram delegada sindical. Como tal teve de enfrentar, em um conflito difícil, o diretor do jornal, Jacobo Timerman, a quem desprezava profundamente. O conflito se perdeu e quando Timerman começou a denunciar como guerrilheiros a seus próprios jornalistas, ela pediu licença e não voltou mais.

Foi militar em uma vila miserável. Era seu primeiro contato com a pobreza extrema em cujo nome combatia. Saiu dessa experiência convertida a um ascetismo que impressionava. Seu marido, Emiliano Costa, foi detido no início de 1975 e não o viu mais. A filha de ambos nasceu pouco depois. O último ano de minha filha foi duro. O sentido do dever a levou a relegar toda gratificação individual, a empenhar-se muito mais além de suas forças físicas. Como tantos rapazes que de repente se tornaram adultos, andou aos saltos, fugindo de casa em casa. Não se queixava, somente seu sorriso se tornava um pouco mais esmaecido. Nas últimas semanas vários de seus companheiros foram mortos: não pôde deter-se a chorar por eles. Embargava-a uma terrível urgência por criar meios de comunicação na frente sindical que era sua responsabilidade.

Víamo-nos uma vez por semana; a cada quinze dias. Eram entrevistas curtas, caminhando pela rua, talvez dez minutos no banco de uma praça. Fazíamos planos para viver juntos, para ter uma casa onde conversar, recordar, estar juntos em silêncio. Pressentíamos, entretanto, que isso não ia acontecer, que um desses fugazes encontros ia ser o último, e nos despedíamos simulando valor, consolando-nos da antecipada perda.

Minha filha estava disposta a não entregar-se com vida. Era uma decisão madura, ponderada. Conhecia, por uma infinidade de testemunhos, o trato que dispensam os militares e marinheiros àqueles que têm a desgraça de cair prisioneiros: o esfolamento em vida, a mutilação de membros, a tortura sem limite no tempo ou no método, que procura ao mesmo tempo a degradação moral, a delação. Sabia perfeitamente que em uma guerra com essas características, o pecado não era falar, mas sim cair. Levava sempre consigo a pastilha de cianureto — a mesma com que se matou nosso amigo Paco Urondo —, e com a qual tantos outros obtiveram uma última vitória sobre a barbárie.

Em 28 de setembro, quando entrou na casa da rua Corro, completava 26 anos. Levava em seus braços sua filha porque no último momento não encontrou com quem deixá-la. Deitou-se com ela, de camisola. Usava umas camisolas largas que sempre ficavam grandes.

Às sete horas do dia 29 acordaram-na os alto-falantes do Exército, os primeiros tiros. Seguindo o plano de defesa combinado, subiu ao terraço com o secretário político Molina, enquanto Coronel, Salame e Beltrán respondiam ao fogo do térreo. Vi a cena com seus olhos: o terraço sobre as casas baixas, o céu amanhecendo, e o cerco. O cerco de 150 homens, os FAP* em riste, o tanque.

Chegou a mim o testemunho de um desses homens, um conscrito:

“O combate durou mais de uma hora e meia. Um homem e uma moça atiravam de cima, nos chamou a atenção porque cada vez que atiravam uma rajada e nós nos escondíamos, ela ria.”

Tratei de entender essa risada. A metralhadora era uma Fálcon e minha filha nunca tinha atirado com ela, ainda que conhecesse seu manejo por conta das aulas de instrução. As coisas novas, surpreendentes, sempre a fizeram rir. Sem dúvida era novo e surpreendente para ela que ante uma simples pulsação do dedo brotasse uma rajada e que ante essa rajada 150 homens se escondessem sobre os paralelepípedos, a começar pelo coronel Roualdes, chefe da operação.

Aos caminhões e ao tanque se somou um helicóptero que girava ao redor do terraço, tomado pelo fogo.

“De repente — diz o soldado — houve um incêndio. A moça deixou a metralhadora, ficou de pé sobre o parapeito e abriu os braços. Deixamos de atirar sem que ninguém ordenasse. Era fraquinha, tinha o cabelo curto e estava de camisola. Começou a nos falar em voz alta mas muito tranquila. Não lembro tudo o que disse. Mas lembro da última frase, na realidade não me deixa dormir. ‘Vocês não nos matam, disse, nós elegemos morrer.’ Então, ela e o homem levaram uma pistola às têmporas e se mataram na frente de todos nós.”

Abaixo já não havia resistência. O coronel abriu a porta e atirou uma granada. Depois entraram os oficiais. Encontraram uma bebê de pouco mais de um ano, sentadinha em uma cama, e cinco cadáveres.

No tempo transcorrido refleti sobre essa morte. Perguntei-me se minha filha, se todos os que morreram com ela, tinham outro caminho. A resposta brota do mais fundo do meu coração e quero que meus amigos a conheçam. Vicki pôde escolher outros caminhos, que eram diferentes sem serem desonrosos, mas o que escolheu era o mais justo, o mais generoso, o mais ponderado. Sua lúcida morte é uma síntese de sua curta, bela vida. Não viveu para ela, viveu para outros, e esses outros são milhões. Sua morte sim, sua morte foi gloriosamente sua, e nesse orgulho me afirmo e sou quem renasce dela.

Isto é o que eu queria dizer a meus amigos e o que desejaria que transmitissem pelos meios que sua bondade lhes dite.


* Fuzil automático pesado, de uso regular no Exército Argentino. (n.e.)

(Cuadernos de Marcha / Segunda época, Nº 2/1, Méxio DF, julio-agosto de 1979)